A PROFISSIONALIZAÇÃO DO KARATE

A profissionalização do Karate é um tema discutido há bastante tempo e tem dividido opiniões. Os mais tradicionais acreditam que os conceitos e valores do Karate poderiam se perder e a arte iria acabar se tornando em um mero esporte baseado no lucro. A essência de uma arte marcial que valoriza o desenvolvimento do caráter e a eficiência em um combate real se tornaria algo tão “vazio” como uma disputa de MMA, onde poucos valorizam o caráter, a honra e o respeito o qual defendemos em nossa amada arte marcial.

Já os que apoiam a ideia, acreditam que não haveria perdas, só ganhos. Os entusiastas acreditam que ainda haveria quem defendesse o Karate tradicional em sua essência, mas que poderiam atrair mais adeptos com toda a atratividade que o Karate profissional poderia oferecer. Esta polaridade de opiniões é semelhante ao que vemos em discussões sobre o Karate ser incluído nas olimpíadas.

O que define o Karate profissional

A definição de profissionalização de um esporte seria a remuneração dos atletas e o lucro dos envolvidos. Fazer com que o expectador gaste seu dinheiro para assistir o evento em plataformas online, televisão ou qualquer outro meio de transmissão e envolvendo interesse de grandes patrocinadores. Uma maior atenção e investimento para gerar interesse da audiência.

The First Professional Karate Championships & “Blood and Guts” era

Em 1965 o canal ABC transmitiu um campeonato onde um famoso lutador saiu banhado em sangue causando um grande repudio da mídia nacional, definindo o banimento do esporte nos canais mais importantes da televisão americana. Três anos depois, houve o 1º Campeonato de Karate Profissional (The First Professional Karate Championships) composta por lutadores mais fortes da época transmitido em televisão, apesar do que havia acontecido anteriormente, criando o que viria a se chamar a Era Blood & Guts que significa Sangue & Entranhas. O campeonato era por pontos, mas ainda permitia o contato pleno sem uso de luvas ou qualquer outro protetor. A era Blood & Guts deixou a sua marca na história do Karate americano, revelando lutadores lendários como Joe Lewis.

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Era Blood & Guts

PKA – Professional Karate Association

Em 1974 houve a criação da Professional Karate Association (posteriormente Professional Karate & Kickboxing Association), que veio se tornar a maior organização de Karatê profissional dos EUA e da Europa, revelando nomes bastante conhecidos no mundo das artes marciais como Bill “Superfoot” Wallace, Joe Lewis, Benny “The Jet” Urquidez e muitos outros. O primeiro evento transmitido na mídia foi no canal ABC em um programa chamado Wide World of Entertainment, consagrando os primeiros campeões em suas respectivas categorias: Joe Lewis (heavyweight) Jeff Smith (Light Heavyweight), Bill “Superfoot” Wallace (middleweight) e Isiasis Duenas (Lightweight).

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PKA

Como a maioria das ligas de esportes profissionais, a PKA assinava contratos de exclusividade com os seus atletas com a intenção de construir sua marca.

Devido à problemas internos relacionados ao setor financeiro, a entidade foi perdendo força e a partir disto, duas grandes entidades surgiram: A PKC (Professional Karate Comission) e a ISKA (International Sport Karate Association).

Anos 90 e o início do MMA

Cansado de ensinar Brazilian Jiu-jítsu em sua garagem, Rorion Gracie decidiu que ele queria fazer a sua arte ficar conhecida no mundo todo e que para isso, ele precisaria da televisão para que isto acontecesse. Assim surgiu a ideia de criar uma competição onde representantes de todas as artes marciais se enfrentariam para provar qual seria a “melhor” delas. No dia 12 de novembro de 1993, Royce Gracie estrelava no primeiro UFC e hoje conhecemos o famoso evento onde dois homens lutam em um cage.

Não há como não relacionar a profissionalização do Karate com o MMA, afinal o que fez o UFC ser o que é hoje foi: uma estratégia para atrair a curiosidade do público (Desafio entre artes distintas dentro de uma espécie de jaula), lutas mais longas e sem interrupções (ao contrário do que acontece em eventos amadores por pontos), a valorização dos lutadores envolvidos,  e claro a possibilidade da violência explicita.

O UFC é o evento de artes marciais mais bem sucedido da história e sem dúvidas hoje é referência em termos de produção e organização para qualquer entidade de artes marciais profissionais.

Quais são as ligas atuais de Karate Profissional

UKL Ultimate Karate League – Criada pelo sensei Rajeev Sinha, um ex-aluno de Hidetaka Nishiyama. A liga ainda não alcançou fama mundial, mas é bastante popular na Índia e é composta de atletas indianos e europeus.

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UKL

Com uma super produção midiática, a liga conta com verdadeiros profissionais do ramo do entretenimento, sem dúvidas. Os atletas usam uniformes azul ou brancos dependendo de qual lado competem.

O que mais chama a atenção dos eventos da UKL é o fato de que as competições são realizadas por equipe, o qual recebem nomes e logo bem semelhantes às tradicionais equipes de esportes coletivos americanas.

As regras da UKL não são claras o suficiente para quem assiste seus eventos online sem antes ler como funciona. A forma como as regras foram feitas acabou desagradando uma boa parte da comunidade do Karatê e talvez seja a razão o qual ainda não tenha ganhado o alcance internacional.

Professional Karate (WUKF) – A World Union of Karate Federations, lançou em fevereiro de 2019, o primeiro evento de Karatê profissional da WUKF em Szczecin na Polônia. O autor deste artigo teve a oportunidade de assistir o evento pessoalmente e dessa forma expressar suas impressões.

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WUKF

A realização do primeiro evento superou as expectativas em termos de produção, teve boas lutas, bons atletas, porém deixou a desejar pela constante necessidade de parar as lutas para marcar os pontos, o que deixa de ser atraente para os expectadores que queiram ver um pouco mais de ação, limitando o interesse apenas à comunidade do Karate.

O segundo evento realizado no mesmo ano, houve uma grande melhora em relação às pausas por pontos e maneira o qual os pontos eram considerados, permitindo assim o tão esperado knockout.

Os atletas do Professional Karate usam apenas as calcas e uma faixa (vermelha ou branca), deixando a parte superior descoberta. Segundo Pawel Bambolewski (criador do evento), a ideia de não usar a parte de cima do Karate-Gi serve para mostrar como os músculos funcionam. Há também uma influência de outros esportes de combate profissional como o boxe e MMA, onde o lutador faz a sua entrada com música, fogos e outras técnicas de fazer do evento um verdadeiro show. O professional Karate da WUKF tem um grande potencial em se tornar um dos maiores eventos de Karate.

Karate Combat – A proposta do Karate Combat é colocar karatekas de alto nível para competirem entre si em regras de contato pleno. O mais interessante é que, diferentemente dos primórdios da PKA, as regras fazem com que as lutam não percam as características que moldam o Karate (competitivo) que conhecemos, evitando que o evento venha se transformar em mais um evento de kickboxing ou MMA.

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Karate Combat

No Karate Combat, não é permitido joelhadas, cotoveladas, chutes nas coxas e uppercuts. Apesar de ser permitido socos circulares, vemos bastante técnicas tradicionais o qual estamos acostumados.

O autor desse artigo teve a oportunidade de lutar em um dos eventos do Karate Combat realizado em Hollywood em janeiro de 2019.

O futuro do Karate

O futuro do Karate é prospero, porém, cheio de conflitos de interesses. Enquanto uns pensam em Karate como uma doutrina, esporte, caminho de vida, muitos veem como uma oportunidade de fazer dinheiro, o que é absolutamente normal.  O importante é que preservemos as tradições e os valores, pois temos um compromisso moral e ético de passar aquilo que nos foi confiado pelos nossos senseis.

A verdade é que uma parcela muito pequena irá se tornar um atleta de Karate profissional, mas uma esmagadora maioria treinará constantemente em seus Dojo e carregarão o Karate em sua vida diária.

Esperemos que um dia, esse “heróis” do Karate profissional o qual os jovens se inspiram, sejam sempre modelos a seguir e que não deixem a soberba tomar conta de seu comportamento. O glamour, a fama e o prestígio adquirido durante a sua fase competitiva são passageiros, mas os valores que vivenciamos durante anos de treinamento são para uma vida toda.

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3 comentários sobre “A PROFISSIONALIZAÇÃO DO KARATE

  1. Muito bom esse artigo, eu aprendi coisas que não sabia, vi muitas lutas da UKL e não sabia do que se tratava. Show de artigo! Parabéns!

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  2. Eu sou dos que entendem que a profissionalização do Karate traz prejuízos para o que chamamos de essência da arte. A profissionalização não visa outra finalidade que não a lucratividade em cima da arte marcial. No artigo foram citados vários casos de iniciativas de profissionalização e me parece que nenhuma tem qualquer preocupação com os valores morais que são o essencial do Karate-Do, aliás, essa partícula “Do” é a mais importante para a configuração filosófica do Karate, porém, a mais desvalorizada no Karate profissional. No artigo foi dito que “O importante é que preservemos as tradições e os valores, pois temos um compromisso moral e ético de passar aquilo que nos foi confiado pelos nossos senseis”, concordo, porém, me parece que os valores éticos e morais que tem sido ensinados cada vez mais nos locais de prática de Karate que insistem em chamar de Dojo, não passam da obrigação de seguir as regras competitivas. Há cada vez menos espaço para o Karate-Do e cada vez mais isolamento para os que ainda seguem esse caminho.

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