KARATE NO MUNDO DO MMA – Adaptações

JONAS CORREIA

Ainda sobre a pertinente questão sobre as comparações e/ou adaptações do karate em lutas de contato pleno, que acabou se tornando o maior tabu em relação ao karate que encontramos hoje, tenho visto que o último artigo que escrevi sobre o tema despertou a curiosidade e abriu os olhos de muita gente.

Feliz com o feedback positivo dos praticantes da arte das mãos vazias, resolvi dividir um pouco do que eu tenho percebido ao adaptar o meu karate tradicional a lutas de contato.

Neste artigo, irei pontuar e enumerar as vantagens e desvantagens do karateka ao se aventurar em lutas de contato.

1 – No karate, as mãos estão sempre baixas

A explicação para isso é bem óbvia; os karateka mantêm as mãos afastadas porque lutam em longa distância.  Porém, quando um lutador de artes marciais de contato leva um soco na barriga, ele não terá a mínima intenção de parar de avançar em sua direção, e isso se tornará um grande problema.

Ele vai dar não apenas um soco, mas dois, três, quatro e quantos forem necessários até te derrubar.  É nessa hora que a mão no rosto faz muita falta. A transição do karateka, de estar sempre protegendo o rosto, não é tão fácil e demora a se tornar intuitiva, pois a falta de liberdade dos braços afeta a nossa movimentação como karateka.

2 – Não utilizar diferentes alturas

Escuto constantemente do meu treinador de full contact que minha técnica é muito “engessada”. A verdade é que karatecas não têm o hábito de baixar e levantar a altura da base constantemente como fazem os boxeadores, e isso acaba se tornando um problema. A importância dessa habilidade é enorme, pois, além de dificultar o adversário de atingir a sua cabeça, tem uma excelente função de confundir o oponente em relação ao seu ataque.

3 – Não saber sair de um clinch

O clinch é uma excelente oportunidade para tomar um ar quando o lutador já está bem cansado, mas muitas vezes é utilizado de forma proposital para aplicação de técnicas de cotoveladas e joelhadas, ou até mesmo derrubadas. O karateka acaba se tornando uma vítima fácil do clinch, uma vez que o adversário continua avançando, até o ponto em que é “clinchado”.
Saber proteger o rosto e sair de um clinch é de extrema importância, mas para isso é preciso saber “esgrimar” para tomar a posição vantajosa. A técnica utilizada para isso não é tão difícil, porém deve ser praticada constantemente.

4 – Não saber cair ou evitar uma queda

Muitos mestres de karatê que saíram da JKA já eram faixas pretas de judô antes de ingressarem no karate. Mas, devido às regras competitivas, não houve a necessidade (ou vontade) de ensinar os karateka como se defender de quedas. O take-down torna-se uma pedra no sapato da maioria dos karateka.
O sprawl é a técnica mais importante para aprender a se defender nesse quesito, porém há diversas outras que merecem atenção.

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5 – Não saber cair

Quem já foi arremessado de mau jeito, sabe exatamente o quanto é possível perder uma luta devido ao impacto no chão.

Saber cair é muito importante.

6 – Saber levantar-se do chão

Você evitou a queda, não funcionou, conseguiu amortecer a queda, mas não consegue sair do chão. Eis um lutador derrotado.

Existem duas fases nas quais o karateka deverá aprender a se levantar. A primeira é enquanto o seu adversário ainda está de pé, e a segunda, quando o seu adversário já está em cima de você. São dois treinamentos totalmente diferentes, mas que cabe aqui como um único problema, pois nenhum karateca vai querer ficar no chão.

Não saber sair de técnicas de estrangulamento e chaves

Não precisa ser um gênio para saber que é preciso treinar técnicas de solo se quiser lutar MMA, por isso não adicionei esse tópico como uma das principais frustrações do karateka em lutas de contato uma vez que o artigo é focado em aspectos dos quais o karateka mais subestima a importância.

7 – Fôlego e resistência

Esqueça tudo que você aprendeu em termos de técnica se o seu fôlego e a sua resistência não estão em dia. Parece absurdo, não é?
Mas a verdade é que a maioria das lutas (quando os lutadores estão nivelados) é definida por quem tem o pulmão mais forte.
O karateca encontra aí o primeiro grande desafio, pois o fôlego e a resistência conseguem superar aquele detalhe técnico que você aprendeu num seminário anos atrás. Enquanto nós, karateka, nos prendemos demais à posição milimétrica de um determinado músculo para a aplicação de uma técnica, o lutador de full contact está treinando exaustivamente para te nocautear. O karateka que queira entrar no mundo das lutas de contato deverá eliminar esses excessos que não têm praticidade em termos de lutas de contato.

Jonas karate combat
Sensei Jonas estreando no Karate Combat

8 – Não saber utilizar ângulos

O uso de saída em ângulos é escasso no karatê. Por mais que poucos praticantes ainda a usem, sabemos que entrar e sair em linha reta para um karateka é muito mais confortável, certo? Na hora em que um karateka entra num ringue, cage ou Pit, ele não irá evitar o ataque do adversário saindo apenas para trás.
Faz-se necessário um forte treinamento de movimentação em ângulo, principalmente buscando as costas do adversário.

9 – Querer bloquear socos a distância

Não que isso seja mau, mas o excesso de bloquear os socos a distância às vezes expõe o rosto para um segundo ou terceiro ataque. Às vezes, é melhor fechar um escudo com os braços na cabeça do que sair buscando a mão do adversário.

10 – Queixo alto

Treinamos kihon constantemente e sempre somos lembrados de manter a postura ereta, o que nos obriga a manter a cabeça erguida também. Isso se torna um grande problema para karateka que, depois de tomar o primeiro soco no queixo, ficam desnorteados e não sabem mais o que fazer.
Um queixo alto para o adversário é a maior satisfação que ele pode encontrar.

11 – Evitar o contato a todo custo

Karateka não gostam de ser tocados, porque o nosso treinamento é voltado para não sermos tocados a todo custo, ou isso resultará em uma derrota. As regras do karatê foram baseadas no Kendo, em que quem fosse atingido por uma espada seria derrotado.

Apesar de os mestres de karate terem interpretado os membros como armas, sabemos que nossas armas não são tão letais quando o aço, que é muito mais necessário que um soco bem dado para tirarmos um oponente de combate.

Essa mania de querer evitar ser tocado a todo custo acaba se tornando um problema maior. O karateka encontra dificuldade em ser contundente ao atacar. Além disso, as áreas de competições de artes de contato pleno não te permitem ficar sempre fugindo. O melhor é aprender que você está ali para lutar e que, hora ou outra, vai levar uns sopapos!

12 – Não saber utilizar e defender técnicas curtas e circulares

“De onde veio este soco?” é a primeira frase que vem na sua cabeça quando tomamos um uppercut pela primeira vez. Se formos contar a possibilidade de nocautear alguém com um soco circular e um soco em linha reta, vamos perceber que o soco circular é o “rei dos nocautes”. Além disso, socos em linha reta exigem muito mais técnica do que um soco circular.

Em uma briga de rua, quantos socos em linha reta e quantos circulares são desferidos? Já parou para pensar?
Por que o karate não dá ênfase a socos circulares se são tão eficientes? Este artigo não se presta a buscar essa resposta, mas elucidar a importância de sabermos defender e aplicar socos circulares.
Ok, ok… Eu sei que no livro de Nakayama tem kagi zuki, mawashi zuki etc., mas o ponto aqui é a deficiência do karateka e não técnicas arquivadas em um livro; além do mais, mawashi zuki é bem diferente de um hook punch.

13 – Ataques contínuos

Atletas de karate, quando aplicam uma técnica bem feita, têm o costume de parar o ataque à espera da decisão do juiz em interromper a luta e dar o ponto.  Quando é diferente, karateka seguem com uma pequena combinação. Mas na luta de contato é bem diferente. O karateka vai se sentir frustrado após o adversário bloquear as três primeiras técnicas, vai parar e pensar em um plano, mas aí já será tarde, pois o adversário irá desferir uma combinação devastadora de socos com alturas e formas diferentes, e só irá parar quando o round acabar.

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E agora? Karate é inútil para lutas de full contact?

Agora o leitor deve estar pensando que o propósito deste artigo é inferiorizar o karatê, mas não. Pelo contrário. Agora que já foram enumeradas e explicadas as frustrações do karateka em esportes de contato, darei continuidade citando por que o karatê é uma arte que promove um grande diferencial nas artes de contato.

O primeiro dia de sparring é frustrante. Além de o fôlego não deixar você trabalhar, a batalha entre o consciente (o que entendemos como objetivo da luta de contato) e o inconsciente (a forma como temos treinado durante os anos de karatê tradicional) é um dos grandes problemas. Algumas pessoas chegam a pensar que perderam anos de sua vida treinando a arte errada, ou que o karate não lhes oferece o que precisam.

Mas após passar pelas frustrações citadas acima (as quais ainda estou melhorando) e começar a me familiarizar com o sistema de luta de contato, comecei a utilizar o karatê como a maior de minhas vantagens, e abaixo listo as razões:

1 – Sen-no-sen

Existe algo mais frustrante para um lutador que tomar um golpe desprevenido? O Sen-No-Sen é uma pedra no sapato de todo lutador que enfrentar um karateca. O Sen-no-sen adaptado para lutas de contato é um forte aliado, que para os que não são karatecas acaba se tornando uma tática incompreensível e inesperada.

2 – Excelência em Ma-ai & movimentação

Os passos de um lutador de lutas de contato são óbvios e previsíveis, enquanto que o karate ka treinou a vida inteira uma movimentação voltada para confundir e esconder intenções. Além da movimentação rápida e precisa, o karateka tem controle da longa distância, o qual faz com que o adversário tenha que ser mais ativo para buscar o seu espaço.

3 – Excelência em ler intenções

O karateca é treinado para esconder qualquer movimento desnecessário a fim de não dar ao seu oponente a leitura de suas intenções. Esse treinamento faz com que o karateca também aprenda a ler intenções de ataque ou posicionamento com muito mais sensibilidade que um lutador comum.

4 – Excelência em fintas

Girar o quadril para fingir um gyaku-zuki e soltar um kizami-zuki, levantar o joelho como mae geri e mudar para mawashi geri, entre tantas outras táticas, são especialidades do karate.

5 – Excelência em eliminar movimentos desnecessários

Quem teve o mínimo de contato com a cultura japonesa, consegue entender um pouco do minimalismo japonês. Isso se aplica às muitas das artes japonesas e não seria diferente no karatê.

O minimalismo nas técnicas faz muita diferença.

6 – Excelência técnica

Apesar de nos tópicos anteriores eu ter citado eliminar excessos técnicos em prol de dar ênfase ao treinamento exaustivo, eu gostaria de esclarecer que existe uma vantagem nesse quesito em termos de um desenvolvimento técnico de longo prazo.    O karateka que conseguiu sincronizar diversos músculos e articulações em prol da execução de uma técnica com perfeição e que agora trabalha no treinamento exaustivo para lutas de contato, tem a vantagem natural em potencializar uma técnica com muito mais êxito que um lutador comum poderá fazer. Um exemplo disso é a nossa preocupação em manter o calcanhar no chão ao chutarmos enquanto as outras artes pouco se importam com isso.

7 – Melhor equilíbrio e coordenação por conta do treinamento de Kata

Evitando entrar na polêmica sobre a aplicabilidade do Kata em relação ao Kumite, posso garantir que há pelo menos algo que não podemos negar. O kata nos oferece uma grande possibilidade de entendimento de certos movimentos que apenas a prática de Kumite não nos ofereceria. O Kata desperta não apenas a correção técnica, mas a sincronização de membros inferiores e superiores em uma quantidade absurda de combinações. Além de darmos uma noção ímpar de estabilidade e equilíbrio.

8 – Maior concentração de impacto por técnica

O conceito de Ikken Hissatsu, apesar de muitas pessoas o julgarem utópico, nos deu a vantagem de considerarmos toda técnica como a técnica definitiva. Enquanto os lutadores comuns costumam treinar técnicas em torno de repetições exaustivas, o karateca tem a capacidade de concentrar muita força em uma técnica definitiva. Isso se torna uma grande vantagem quando há uma oportunidade.

O treino de Makiwara potencializa isso.

9 – Treinamento ambidestro

A primeira coisa que um lutador comum de lutas de contato percebe ao estudar o seu oponente é se ele é canhoto ou destro. O karateka treina ambos os lados em igual intensidade. Lutar confortavelmente em ambos os lados se torna um problema muito grande para lutadores comuns, e essa é uma vantagem muito grande para karateka.

Conclusão

A verdade é que o karate é uma arte muito complexa, voltada a resultados em longo prazo e dedicada por toda a vida, enquanto a luta de contato é mais direta e imediata, e a maioria dos atletas de MMA, kickboxing etc. se aposentam cedo devido às lesões. Se um karateka utilizar o karate de forma inteligente, junto ao treinamento duro e exaustivo das lutas de contato, ele se tornará um lutador com um grande potencial.

Lembremos que Lyoto Machida chegou a ter um recorde de dezesseis lutas invictas por utilizar muitas das vantagens do karate  e só veio a conhecer a sua primeira derrota após enfrentar Mauricio “Shogun” Rua, que teve que treinar um pouco de karate para entender melhor o jogo de Machida.

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3 comentários sobre “KARATE NO MUNDO DO MMA – Adaptações

  1. Sensei Jonas, oss! (…Por que o karate não dá ênfase a socos circulares se são tão eficientes? Este artigo não se presta a buscar essa resposta…). Essa é uma pergunta que sempre me faço como karateca, porque não se enfatiza os socos circulares em nossa nobre arte ? Como você falou que este artigo não se presta a esta resposta, gostaria muito de um outro artigo nos tirando esta dúvida. Aguardo..

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    1. Obrigado Stefano pelo comentário. Irei analisar e buscar um tempinho e talvez possa preparar um texto sobre o assunto.

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