110 ANOS DE IMIGRAÇÃO JAPONESA

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Ryo Mizuno ( centro), o homem responsável pela imigração japonesa no Brasil 

As artes marciais no Brasil estão diretamente ligadas à imigração japonesa para nosso país.  Antes da vinda dos japoneses, que aportaram primeiro em Santos/SP a partir de 1908, os brasileiros só conheciam algumas poucas modalidades de combate.
As mais populares eram o Pugilismo e a nativa Capoeira. Com a imigração japonesa houve a introdução do Judô (caminho suave), do Sumô, do Karate-dô (caminho das mãos vazias) e do Kendô (caminho da espada) até metade do século XX, sempre vinculado à vinda dos japoneses.
Aos poucos, os brasileiros nativos foram sendo incluídos nos grupos de práticas dessas artes marciais e se integrando à comunidade japonesa através dos treinamentos e eventos.

Não é nenhum exagero dizer que as artes marciais foram o principal portal de acesso dos brasileiros à forma de pensar e agir dos japoneses.  Sabemos que há grandes contrastes em termos de costumes e valores entre a cultura europeia e a japonesa, e foi nos Dojô (local do caminho, salão onde se treina a arte marcial japonesa) onde essa linda cultura com seus costumes foi primeiramente saboreada pelos brasileiros. Durante um longo tempo, essas diferenças culturais e as barreiras de comunicação, que haviam, mantiveram o ensino e a organização das artes marciais na mão dos imigrantes e seus descendentes. Porém, com o passar de algumas décadas, acompanhamos o desenvolvimento de muitos brasileiros descendentes de outras etnias que se graduaram, se tornando também grande atletas e instrutores. Sendo assim, atualmente há descendentes de japoneses e não-descendentes liderando juntos federações e escolas de artes marciais japonesas, notadamente daquelas “modalidades olímpicas”, como Judô e Karate, provando que essas práticas e os aspectos mais gerais da cultura japonesa já estão bem integrados à cultura e ao dia-a-dia do brasileiro.

Vale a pena ressaltar também que outras artes marciais populares, como o Taekwondo (de origem coreana), o Muay Thai (de origem tailandesa) e o Wushu/Kung-Fu (de origem chinesa) também estão bem estabelecidos no Brasil, tendo sido beneficiadas pelo pioneirismo japonês. Graças ao grande trabalho de divulgação dos instrutores japoneses de artes marciais, muitas artes e outras disciplinas de combate se enraizaram firmemente no Brasil e nosso país é reconhecido a nível internacional como uma potência dos Esportes de Combate.

200px-Maeda_MituyoÉ notória a identificação do brasileiro com as artes marciais nipônicas. Esse fascínio iniciou com a vinda de Mitsuyo Maeda, o famoso judoca que viajou o mundo desafiando e vencendo lutadores em vários continentes. Maeda introduziu a técnica no Brasil ensinando os primeiros lutadores da família Greice, quando residiu no Norte do nosso país. Por exigência do Kodokan (a “meca” mundial do Judô, criada pelo fundador Jigoro Kano), Maeda, que também era conhecido pelo nome artístico “Conde Koma”, fora proibido de usar o nome Judô para identificar sua técnica. Usava então o nome da antiga arte japonesa de combate desarmado que deu origem ao seu Judô, o Ju-jutsu.
Com o tempo e os equívocos de grafia na Europa e na América, o nome “jiu-jitsu” se popularizou. Assim, após se desvincularem de Maeda, os Greice estabeleceram o “Brazilian Jiu-Jitsu” e formaram um império no mundo das lutas, através de um grande trabalho de administração de academias e ações de divulgação/propaganda muito inovadoras para a época. Outra influência muito significativa para a forte identificação dos brasileiros com as artes marciais japonesas foi o estabelecimento dos treinamentos dessas artes nas forças policiais e forças armadas do Brasil. Muitos instrutores de Karate e Judô se tornaram instrutores dessas forças após testes realizados na época contra lutadores de Pugilismo, Luta Livre e Capoeira que instruíam nessas instituições.
O fato de homens pequenos e de constituição aparentemente mais frágil vencerem consistentemente seus pares brasileiros em desafios e demonstrações fez com que o interesse nas artes japonesas explodisse. Depois, a partir das décadas de 1970 e 1980, quando as artes marciais nipônicas começaram a se organizar melhor, as competições esportivas se popularizaram e houve uma procura cada vez mais ascendente. Os brasileiros vêm, desde então se destacando nesses eventos competitivos. No Judô, no Karate e mesmo nas recentemente desenvolvidas ligas de Artes Marciais Mistas (MMA) como o UFC, o Brasil está entre as cinco potências mundiais.

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Pinto San (dir.) Tiago Frosi (ao lado) nos treinos da JKS no Honbu Dojo em Tokyo – 2015

Não podemos esquecer também os incontáveis grupos de praticantes de artes marciais menos práticas e mais filosóficas, como o Aikidô e o Kendô que têm muitos adeptos no nosso país por encontrarem nessas disciplinas filosofias de vida cativantes.
A arte marcial mais praticada pelos brasileiros na atualidade é japonesa. Trata-se do Judô, com cerca de 2 milhões de praticantes em todo território nacional. Segundo as estatísticas, o Judô é seguido pelo Brazilian Jiu-Jitsu e pelo Karate, com cerca de meio milhão de praticantes cada.
Outras modalidades populares e bem estabelecidas no Brasil são o Taekwondo, o Muay Thai, e o Wushu/Kung-Fu. Com o contínuo desenvolvimento das ligas de MMA e o atual advento do Karate à modalidade olímpica, espera-se para o futuro que o Brazilian Jiu-Jitsu, o Muay Thai, e especialmente o Karate tenham crescimento ainda mais expressivo nos próximos anos.

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Tiago Oviedo Frosi: Pesquisador da História das Artes Marciais, publicou livros e dezenas de artigos acadêmicos sobre o tema. É Mestre em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS, Especialista em Psicologia Transpessoal pela SPEI/Unipaz, Bacharel em Educação Física pela UFRGS, Instrutor de Karate Shotokan qualificado no Japão (Universidade Teikyo), filiado à Japan Karate Shotofederation e à World Karate Federation. Ensina artes marciais na UFRGS e no Shinjigenkan Dojo em Porto Alegre.