KOBUDOU – As armas do Karate

Budokan Okinawa
Budokan Okinawa

E lá estávamos eu e Ibata sensei no nosso segundo dia de aventura no berço do karate,  bestificados com tudo que tinha acontecido no dia anterior  e com o corpo ainda dolorido devido ao desafio das 100 repetições de kata.
Foi na portaria do hotel  que encontramos um outro estrangeiro que tentava se comunicar com a recepcionista mas sem muito sucesso, então decidimos ajudar e descobrimos que era mais um karateka oriundo da Argentina que também  estava em Okinawa para treinar e participar de alguns eventos de karate na cidade.
Carlos estava procurando o Budokan, o ginásio de artes marciais da cidade. O “hermano” não conhecia bem Naha e estava procurando informações de como ir até lá.   Eu e Ibata decidimos fazer um pequeno desvio na nossa programação do dia e levar nosso novo colega karateka até o ginásio que ficava a poucos minutos do hotel, e foi ai que a mágica aconteceu…

uniforma de karate com qualidade internacional
Uniforme de karate com qualidade internacional.

 

Carlos Camaschi
Carlos Camaschi da Argentina

No caminho, nosso novo amigo já falava sobre o mestre de kobudou* com quem ele vinha treinando em Okinawa, sobre este mestre se tornar sucessor do estilo Renseikai Kobudou (錬成会古武道), do conhecimento que tinha e tudo o mais, mas confesso que não fiquei muito interessado, até ver o treino e a áurea do local.
O que logo chamou a nossa atenção foi o valor das aulas, até então os treinos que  tínhamos agendado com os mestres ligados ao Karate Kaikan ficava em torno de 30 dólares por aula, o que é um preço um pouco alto levando em consideração que iriamos ter pelo menos 9 aulas durante o período que ficaríamos em Okinawa.  Porém, ao saber que as aulas de RenseiKai Kobudo custava 1 dólar por 3 horas de aula, criamos um interesse como bons brasileiros que somos. Não acreditei quando Carlos me falou, achei que ele estava se confundindo na conversão da moeda japonesa para o dólar, mas era verdade.
Perguntei se poderia ver o treino e conferir a qualidade da aula, Carlos disse que não haveria problema, desde que falássemos com o sensei antes, e foi isso que fizemos.
O semblante e carisma de Yogi Josen sensei foi o que nos conquistou. Um senhor com pouco mais de 155 cm, com seus 84 anos de idade e sempre com um sorriso no rosto nos recebeu  e se espantou quando pedimos permissão para assistir ao treino falando em japonês.  Boa parte da turma de graduados era composta por estrangeiros de várias partes, muitos residiam em Naha e também eram sensei de karate e kobudo.
Meu espírito aventureiro falou mais alto e eu pedi permissão para participar do treino, prontamente tive meu pedido aceito e autorizado a colocar meu dogi. Ibata sensei tinha esquecido o dogi no carro, até por que nossa programação era treinar apenas a noite, em um dojo de Shorin Ryu, mas Yogi sensei o convidou a participar do treino usando roupas normais.

Após um leve aquecimento, partimos para o fundamento do Renseikai, que segundo Yogi sensei é a base do estilo, o kata Sanchin treinado na forma do Uechi Ryu Karate (estilo tradicional de Okinawa). Um kata que apesar de parecer simples, é de uma complexidade impressionante.  Sua respiração sonora e uma compressão muscular que em uma única repetição já pode te deixar com vontade de voltar pra casa descansar.

Yogi sensei fez algumas rápidas explicações sobre o Kata, da importância dele no treino que viria a seguir. O kata sanchi possui várias versões, e tem sua origem direta do Wushu, e a forma treinada pelo Uechi Ryu segue a as raízes, usando as mãos abertas, em forma de “Nukite”, na maioria das defesas e ataques. Yogi sensei nos explicou a importância disso, segundo ele, uma deficiência nas técnicas de punho fechado é o pouco uso dos tendões da parte externa das mãos ,  mecanismo extensor dos dedos.  O uso das técnicas de mãos abertas (Nukite, Shuutou, Haitou) fortalecem esses tendões, protegendo mais os metacarpos e prevenindo fraturas.
Algo tão simples e óbvio, mas que eu nunca parei para pensar, e não preciso dizer o quanto isso me impressionou logo de cara.  Ali, eu e Ibata percebemos que estávamos no lugar certo!

A nossa postura era de ” Mukyu¹”. Éramos mais uma vez iniciantes naquele estilo de karate e nossa primeira aula de kobudo.  A diferença do uso do quadril, da forma de uso do Kime, centro de gravidade e até mesmo da postura no treino  foi uma das barreiras mais difíceis. Várias vezes fui corrigido por Yogi sensei por usar o centro de gravidade na forma do zenkutsudachi na base Sanchin.  Explicações curtas, exemplos simples e direto ao ponto.

Nosso primeiro treino com as armas foi com o Bou (棒), o bastão básico de madeira com aproximadamente 2.400 cm de comprimento.
Quem já ouviu nosso programa sobre as Armas de Okinawa, sabe que o kobudou é a arte desenvolvida com base no uso dos instrumentos domésticos do cotidiano do Reino de Ryukyu. O Bou, usado como cajado, vara para transportar cestos ou usado como varal para roupas, é uma das armas mais comuns de treino. E cá entre nós, é um dos mais bonitos e apaixonantes na minha opinião.

Kamae estilo Matayoshi

A primeira coisa que aprendi foi que o  estilo de Kobudou que estávamos treinando era  baseado no estilo Matayoshi, tendo como característica principal a ” pegada” do Bou de uma forma que ele passe pela lateral do ombro  ao invés de segurá-lo passando por debaixo da axila.
Não é tão simples e sem propósito como parece, as formas de  ataques mudam e o pulso precisa de tempo pra se acostumar com essa posição.  O segundo passo foi o manuseio do “arma” , forma de segurar e a troca das mãos a cada defesa e golpe. Um treino bem básico e simples, mas sem ele, com certeza eu iria derrubar o bastão durante o treino.
Yogi sensei partiu para o treino de kata com Bou, a turma era de graduados e o treino era a nível intermediário para avançado, e eu e Ibata tivemos que nos virar e acompanhar a turma, mas sempre em pausas prolongadas entre uma técnica e outra. Yogi sensei nos corrigia e explicava .
Me apaixonei pelo Bou.

Dojoweb ferramenta de gestão
Mensalidades, planos de aula e folha de pagamento é com o dojoweb

O segundo kata foi executado com o Sai (サイ), mais um utensílio usado como arma, e cá pra nós, assim como a Kama( 鎌 – Foice), é uma arma de manuseio perigoso e que não me deixou muito entusiasmado. O cuidado vai desde a forma de segurar enquanto está recebendo instruções do sensei, até modificações de algumas técnicas com o intuito de diminuir os riscos de acidentes. Não é muito difícil você cortar seu próprio cotovelo ou dogi com uma  Kama ou furar seu abdômen com um Sai num Hikite (puxada de mão).  Esses foram as primeiras instruções que tivemos de Alessandro senpai², Italiano que vive em Okinawa, aluno antigo do dojo e também sensei de kobudo, Kali Filipino e Wushu em Naha.

Yogi sensei e o Sai de 60 anos
Um Sai com 60 anos de idade

Sensei nos explicou um pouco da historia do Sai, e apesar de eu já saber graças ao podcast que eu, Tiago Frosi e Pedrinho fizemos há alguns anos atrás, era interessante ver um nativo falar sobre o uso e historia.
Mais uma repetição de kata com o Sai, aqueles malditos giros e aquela sensação de que a qualquer momento eu iria derrubar  o ” espeto” no chão ou pior, no meu pé.
Como falei antes, fomos despreparados para o treino, nem eu, nem Ibata tínhamos comprado nenhuma das armas para treino, então tivemos que pegar emprestadas as dos outros participantes, e a honra foi poder usar o Sai de Yogi sensei, com quase 70 anos de uso!   Era uma peça digna de estar no Museu do Karate Kaikan, e uma honra para mim e Ibata sensei.
Todos os Kata tinham uma forma parecida, todos baseados no Kata Sanchin, algumas diferenças, mas era visível a influencia desse kata no kobudou do Renseikai.
Seguimos com o treino, dessa vez usando a Kama, mais algumas instruções de como não cortar seus cotovelos com o par de foices,  a Tonfa ( トンファー)  ou como chamam no dialeto de Okinawa, TUIFA , e o famoso Nuchaku, e esse  último realmente é bem interessante.

Yogi sensei ensinando uma das posturas do kata com Nuchaku
Yogi sensei ensinando uma das posturas do kata com Nuchaku

Diferente dos espetáculos circenses que estamos acostumados em ver por ai, performances ” a la Bruce Lee”, o kata com o Nuchaku (ヌチャク), é composto em sua maioria de movimentos simples, com ataques circulares, que  são a especialidade desta arma, e ataques nos três níveis de altura (jodan*, chuuda* e gedan*), tal como no karate.
Eu não tinha um nuchuko então usei uma toalha de rosto para treinar, e na segunda rodada do kata, Yogi sensei me emprestou o seu.   Várias correções vindas dele, o kamae era a que ele mais exigia, explicava a importância de ter a mão na lateral do rosto quando atacávamos a nível jodan com a outra mão, para proteger o rosto.

A cada pausa escutávamos uma história ou recebíamos uma explicação mais detalhada de sensei, hora sobre o kata Sanchin, hora sobre o uso de determinada arma, e também receber alguns elogios.
A experiência foi excelente!
Depois do treino  entregamos alguns presentes à Yogi sensei e ao Onaga sensei ( Shito Ryu), e  fomos convidados para almoçar em um  restaurante de comida tradicional de Okinawa, onde a conversa se estendeu. Por fim, fomos todos juntos ao Karate Kaikan, assistir a uma pequena apresentação em comemoração ao dia do karate, mas infelizmente ela já tinha acabado.
Eu tinha realizado um sonho, treinar kobudou em Okinawa e, encontrar um mestre daquele gabarito, foi um bônus que eu não esperava ter.
Ainda tivemos mais dois dias de treino de Kobudou e uma visita ao dojo de Onaga sensei para um intercâmbio com seus alunos.
Mas isso eu vou deixar para a próxima postagem.

Até lá e bons treinos.
Ossu!


*NOTA: Por ser uma palavra estrangeira, usamos a letra N ao invés do M, seguindo o sistema Hepburn.  1- Apesar de existir livros em português com a grafia   KOBUDO, nosso site opta por usar a  letra U no fim,  seguindo o sistema Hepburn de transcrição. 2  – MUKYUU  ( Muquiu  無級 ) –  Sem graduação, iniciante faixa branca no caso das artes marciais japonesa.

2 comentários sobre “KOBUDOU – As armas do Karate

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