O DESAFIO DOS 100 KATA!

ABERTURA DO 100 KATA CHALLENGER - Okinawa

ABERTURA DO 100 KATA CHALLENGER – Okinawa

As comemorações do dia do karate em Okinawa começaram no dia 24 de Outubro, com o “100 kata challenger“. Evento organizado pelo inglês James Pankiewicz, praticante de karate Shorin* Matsubashi  Ryu, aluno de Arakaki sensei . James reside em Okinawa há pelo menos 9 anos,  com o objetivo de treinar karate tradicional de Okinawa. Desde então, vem desenvolvendo eventos e empreendimentos com a temática karate, como é o caso do Dojo Bar, que certamente é um ponto turístico para qualquer karateka que vai à Naha. Deixar registrado sua passagem por lá, escrevendo seu nome nas paredes do bar já é uma tradição entre os visitantes.

PORQUE O 100 KATA CHALLENGER ?

Essa com certeza é uma pergunta que James san tem que responder frequentemente , haja visto sua habilidade com a resposta.

” Por que a forma do desafio pode ser feita com todos juntos, não importa se você é um iniciante, um atleta famoso ou um praticante.  É um desafio difícil mas todos podem executá-lo em qualquer lugar, seja em Okinawa, no Japão ou em qualquer outra parte do mundo, mas que nos uni com o mesmo objetivo, o mesmo sentimento, nos transformando em uma família através deste desafio. ”
– James Pankiewicz

E foi com esse sentimento que karateka* de vários países e estilos que, juntos no pátio do Karate Kaikan em Okinawa, em frente ao ” Dojo Especial ” do complexo, executaram 100 kata no período de 2 horas  decretando a abertura das comemorações ao Dia do Karate!  Aliás, quase todos…

PENSANDO EM IR  À OKINAWA? VAI VESTIDO DE FORMA ELEGANTE COM TOWAKAI!

 

Abertura do 100 kata challenger

James – Organizador do evento e Arakaki sensei – 10º Matsubayashi Ryu

O evento começou com apresentações e algumas palavras do organizador e do seu sensei  Toshimitsu Arakaki, 10º Dan do estilo  Shorin Matsubayashi Ryu.

Todos os participantes se apresentaram dizendo seu estilo e país de origem.  Karateka do Canadá, Argentina, Austrália, Noruega e claro Brasil!
Os estilos eram os mais diversos, até mesmo alguns que nunca ouvi falar (nem a maioria dos participantes ali), mas o clima era excelente, todos felizes e dispostos a fazer o intercâmbio, outro ponto alto do evento. Após o discurso de Arakaki sensei, que foi traduzido para inglês por James san,  tivemos uma breve explicação sobre as regras.  Eram 100 repetições dos kata* que você mesmo definia, não era nenhum pré-determinado pela organização do evento, o que foi excelente já que eu, Ibata sensei ( Ibata Dojo Hamamatsu) e Santiago ( Argentina), éramos  os únicos praticantes de estilo  Shotokan aparentemente, e estaríamos perdidos caso fosse definido um kata dos estilos de karate de Okinawa.  Também tínhamos a liberdade de trocar de kata caso desejássemos.
A  meta eram 100 repetições, mas nem todos conseguiram atingir essa marca,  talvez devido o preparo físico, que contou muito depois da 50ª execução, ou por que alguns tinham apenas como objetivo participar do evento para fotografar ou ainda apenas prestigiar.

"Oliver" Karate Kyokushin - Noruega

Filho de Odin no evento nos mostrando a “Viking Power”

Mas muitos deram o seu melhor, como foi o caso do nosso amigo de nome impronunciável na minha língua portuguesa, mas que logo o batizei de “Oliver“, karateka Norueguês do estilo Kyokushin, de uma simpatia sem tamanho.  Permaneceu firme e forte até o fim do evento, atingindo a marca de 68 repetições, e saindo do Karate Kaikan direto para o Dojo de Higaona sensei ( Goju Ryu) para uma seção de 2 horas de treino. Um exemplo de guerreiro Viking dos tempos modernos.
O objetivo era exceder seus limites, conectar mente, corpo e espirito, afinal depois de 30 repetições sem esses três você dificilmente iria até o fim…

Após a foto oficial do evento, nos dividimos em grupos. No começo, grupos pequenos formados por praticantes do mesmo estilo ou do mesmo dojo, mas aos poucos o intercâmbio técnico e a miscigenação entre eles foram aparecendo.
Eu e Ibata sensei começamos com o kata Heian Yondan, estávamos tímidos já que aparentemente éramos os únicos praticantes de Shotokan.  Depois de pensar sobre ter que chutar 100 yoko geri keage com cada perna, decidimos diminuir um pouco do nível do desafio, e trocamos para o kata Tekki shodan, mas confesso que não foi tão fácil como imaginávamos…

DOJOWEB –  A FORMA CERTA DE GERENCIAR SEU DOJO!

A primeira pausa foi logo após a 45ª execução.  As pernas já davam sinais de cansaço e o suor  escorria pela testa (no meu caso escorria bem mais por falta de cabelos).  Foi uma parada de 15 minutos para beber água, sentar um pouco, conversar com outros participantes e tomar fôlego.  FOI UM ERRO!

Desafio dos 100 kata Okinawa

O argentino Santiago ( Fã do Pelé) , se junta a nossa equipe.

A volta foi pior, as pernas tremiam, a sensação era de que elas estavam desencaixando do quadril a cada deslocamento de base Kibadachi.   Os joelhos  já estavam reclamando, principalmente os de Ibata sensei, mas continuamos firmes e fortes.   Próximo a 1 hora de evento, íamos bem, o problema é que manter o ritmo era difícil. Adotamos o sistema de revezamento, a cada repetição um de nós dois tomava a dianteira, e “puxava” a execução.
60ª repetição, mais uma pausa…
Dai pra frente tudo ficou mais difícil, inclusive o passar das horas.  A dor já tinha desistido de nós, o dogi¹ pesava mais devido ao suor, o sistema de revezamento já não estava surtindo tanto efeito assim, começamos a trocar de direção a cada repetição e praticar Mokuso².

Pinto san

” Vai ser legal” – Eles disseram…

Na verdade estávamos receosos com a prática de alguns costumes do karate japonês, tal como o próprio Mokuso, era nossa primeira vez em Okinawa e nosso primeiro contato com os estilos tradicionais, não sabíamos como seria a reação caso usássemos os “rituais” do karate shotokan, mas isso foi aparecendo naturalmente.
Santiago, um jovem karateka também do estilo shotokan, se apresentou e pediu para se juntar ao nosso grupo, como toda a ajuda é bem vinda aceitamos de cara, e assim fomos até o nosso objetivo.

Aos poucos o pátio foi ficando vazio, a noite foi chegando e com ela uma certa tristeza.  Participantes  paravam para bater fotos, assinar o nome e voltar para o conforto do lar, alguns sem terminar o desafio,  mas não os 3 sul-americanos que com muito esforço chegaram as 90 repetições.  Pausa para água e enviar mensagens de despedidas para os familiares…
Pátio vazio e escuro, três karateka com mãos apoiadas nos joelhos, apenas o mais jovens ainda tinha esperanças de terminar, as últimas 20 execuções mais pareciam uma seção de Taichi, e aquele pensamento de ” o que é que eu to fazendo aqui?”.

Karate Kaikan dojo especial

DOJO ESPECIAL  DO KARATE KAIKAN – Esse lugar é mágico!

Então a magia acontece! Naquela escuridão, luzes ascendem direcionadas ao “Dojo Especial”, um belíssimo palco para apresentações comemorativas, a visão era maravilhosa e revigorante.  Decidi pegar aquela energia positiva que nascia com aquela imagem e terminar aquele desafio, agora sim era um desafio de verdade. Nos alinhamos  à frente do prédio iluminado, agora só havia o estilo shotokan, ninguém mais para nos preocuparmos com etiquetas ou possíveis gafes. Ouve um pequeno discurso sobre o que fomos fazer ali, da importância que toda essa experiência teria nas nossas vidas , um longo “Mokuso” para absorver aquela áurea, e lá fomos, 10 repetições de Tekki Shodan, com nosso máximo!   Éramos uma equipe, não uma equipe competitiva, um grupo unidos por uma dificuldade e um propósito.  Um falhava por um breve momento, mas era logo resgatado pelos outros dois companheiros e retornava à batalha.  E assim completamos os 100 kata.

Desafio dos 100 kata okinawa

Pinto San, Santiago, James e Ibata sensei.

Eu não sabia ao certo se aquilo era um abraço ou a gente estava se apoiando uns nos outros, mas com certeza tudo aquilo ficou marcado, não somente nas nossas mentes, mas também nas câmeras que a equipe da organização do evento usava para registrar tudo aquilo.  Algumas palmas por partes dos que estavam assistindo e os parabéns por ter concluído e entendido o “espírito da coisa.”

A comemoração foi regada à litros de água, relaxantes muscular, massagem com Calminex (uso veterinário) e aquela  felicidade por trás dos rostos suados e cansados.  Nós estávamos em Okinawa, o berço do karate.

Ossu!


* Palavra karateka não faz parte  da língua portuguesa, logo não segue as regras de  plural. 1 – DOGI (Dôgui) – Uniforme usado nas artes marciais japonesas, erroneamente chamado no Brasil de Kimono.   2- MOKUSO (Mocusô) – meditação usada também nas artes marciais japonesas.

 

 

 

 

 

Sobre Pinto San

Estudante de karate há quase 20 anos, amante da cultura japonesa desde os 8 anos de idade e viciado em lámem. Casado com Priscilla Pinto ( filha de japonês), decidimos vir para o Japão pra levantar uma grana trabalhando nas terríveis fábricas japonesas, e treinar muito karate. Treino em um pequeno Dojo no interior do Japão, mas todos os anos em embarco em aventuras pelo país/ilha, procurando os melhores dojo de shotokan para aprender mais karate. Meu objetivo é simples, ser o melhor karateka do mundo! Claro que isso é impossível, mas no fim das contas o mais importante mesmo é a jornada.

Publicado em 05/11/2017, em Ajudando os Kohai iniciantes, Cotidiano, Nossos Colunistas, Notícias, Pinto San. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Muito bom, parabéns pelo esforço e dedicação, exemplo a seguir na Arte das Mãos Vazias….ossu

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  2. Antonio Sérgio

    realmente uma experiência inesquecível. parabéns Sensei Pinto San e obrigado por nos compartilhar tão preciso conhecimento. Osu!

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  3. Erick Davi Pessanha

    Belo relato! Vou treinar para praticar os 100 Kata no desafio do ano que vem.

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  4. Igor Pedreira

    Excelente Pinto San! Vocês estão de parabéns! Com certeza momento único. No nosso dojo aqui, eu e mais 3 colegas também fizemos o desafio dos 100 kata. Fizemos 100 Tekki Shodan em pouco mais de 2:30 h, sem dúvidas foi muito gratificante no final, mas fizemos diferente, faziamos 10 kata seguidos, ai um descanso de 1 ou 2 minutos. A partir do 50 meu corpo parece que anestesiou, não sentia mais nada, só uma energia muito boa e a vontade de fazer mais 50, os 10 últimos foram tão fortes, que parece que estávamos começando o desafio. AS dores só apareceram no outro dia, fui treinar a noite e quase não conseguia executar os movimentos, as pernas tremiam demais. Mas valeu cada kata, faria tudo de novo.
    Osu!!

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