KARATE E PSICOLOGIA – por Daniele Silva e Tiago Frosi

Karate e psicologia
Embora com métodos diferentes, estes dois mapeamentos podem atuar juntos para propiciar crescimento e saúde às pessoas.


Na psicologia existem várias teorias que tentam definir e compreender o ser humano. Para a Psicologia Transpessoal, por exemplo, o ser humano é um ser bio-psico-social e espiritual, sendo que ao considerar a dimensão espiritual, esta psicologia diferencia-se de outras teorias psicológicas. Além de trazer para o cenário da psicologia a dimensão espiritual, a Psicologia Transpessoal também reforça o que autores como Wilhelm Reich, Alexander Lowen e Fritz Perls já haviam apontado: a importância do cuidado da dimensão física do Ser para que haja um verdadeiro crescimento pessoal e transpessoal. Isto porque a história pessoal (e porque não, a história da própria humanidade), está marcada, registrada no corpo, revelando-se na forma como andamos, nas nossas dores físicas, na forma como o corpo se posiciona perante as situações do dia-a-dia, etc.
Desta forma, a Transpessoal é uma psicologia voltada para a inteireza do Ser, afirmando que é necessário o desenvolvimento de todas as dimensões que constituem o humano, integrando-as. Na verdade, o ser humano é um ser inteiro, porém, como aponta a psicóloga Vera Saldanha e outros autores da Psicologia Transpessoal, ele encontra-se e percebe-se fragmentado, sem consciência da unidade, devido à ilusão da separatividade. As pessoas em geral referem-se “ao meu corpo”, ficando evidente a separação. Mas esta separação não existe, o corpo não é uma entidade separada daquilo que somos, pois nós somos o nosso corpo. Assim, à medida que se cuida do corpo, cuida-se também do psiquismo e do espírito; sendo o contrário também verdadeiro: quando se cuida da psiquê ou do espírito, também se está cuidando do corpo.

ARTES MARCIAIS, CAMINHO PARA A INTEGRAÇÃO

Neste processo de re-integração do Ser, Pierre Weil, saudoso psicólogo transpessoal, coloca que as artes marciais são uma ‘holopráxis’, ou seja, são práticas que possibilitam ao ser humano chegar à vivência do Todo, ajudando a reencontrar nossa inteireza essencial. Dentro desta visão, através das artes marciais é possível ao praticante experimentar e desenvolver a totalidade do seu Ser – seus níveis físico-psico-social e espiritual -, promovendo-se assim seu crescimento pessoal e transpessoal.
Coincidentemente ou não, já apontava Gichin Funakoshi, o pai do Karate moderno, esta arte marcial tem como objetivo o desenvolvimento integral do Ser, onde cada um precisa vencer a si mesmo, aqui e agora.
As artes marciais e em especial o Karate-Do, não são apenas técnicas de autodefesa ou de luta, elas têm objetivos que vão além desta simples definição. O Karate-Do, o “caminho das mãos do Vazio” busca desenvolver o caráter do praticante, de forma a levá-lo ao encontro com a Totalidade, expressa por Funakoshi através do conceito budista de Vazio. (Consideramos aqui, caráter como as características psicológicas que caracterizam a pessoa, incluindo-se também, a moral e a ética que a orienta). Neste sentido, além do Karate-Do ter como proposta propiciar um desenvolvimento moral e ético, devido à filosofia oriental na qual se fundamenta, ele também é uma ferramenta de auto-conhecimento, na medida em que é possível se conhecer mais através de sua prática, ajudando, desta forma, a se ter uma vida mais satisfatória e plena.
Entre os benefícios psicológicos proporcionados pelo Karate-Do estão o aperfeiçoamento da atenção, o desenvolvimento da concentração, da força de vontade, da disciplina, da coragem, da determinação, do equilíbrio emocional, do estado de presença, diminuição da ansiedade e da tensão, entre outros. Esta arte também procura desenvolver valores e permite que o praticante melhore suas relações pessoais, tendo assim um ganho na sua dimensão social (pois é praticado em geral em grupo), e também porque preza pelo respeito aos colegas, professores e adversários acima de tudo.
O Karate-Do é uma também uma ferramenta para que os praticantes reconheçam suas emoções diante de situações adversas e conheçam como estão lidando com cada uma destas emoções, além de possibilitar a aprendizagem de novas formas de expressá-las. Entre essas emoções estão a agressividade, o medo, a ansiedade e a impulsividade. Cada desafio, no treinamento, nos testes e nas competições, ajuda a reconhecer cada um destes aspectos e a aprender a administrá-los melhor, de forma mais equilibrada. O Karate-Do coloca o praticante em várias situações de exposição a partir do Kata (exercício formal de performance) e do Kumite (luta), e estas despertam sentimentos, pensamentos e fazem o corpo reagir de acordo com as aprendizagens que são trazidas pela pessoa. Estas aprendizagens se dão tanto a nível corporal e psíquico quanto espiritual, de acordo com seu desenvolvimento pessoal e com sua vida. Todo o Ser está presente no momento do Kata e do Kumite.
Nos dias atuais, onde a sociedade mostra-se demasiadamente cartesiana, separando corpo, mente e espírito, e cultuando o corpo somente em sua estética, o Karate-Do possibilita o resgate do corpo com outra significação. Além do desenvolvimento das inúmeras valências físicas fundamentais, como força, potência, capacidade cárdio respiratória, equilíbrio, resistência e potência anaeróbica, ritmo e ampliação dos reflexos, etc, o corpo é reconhecido e respeitado como caminho para o desenvolvimento físico e das demais dimensões do Ser, pois é visto com o olhar integral – corpo e espírito impossíveis de se separar, como Funakoshi e outros mestres orientais já apontavam. É uma nova forma também de respeito ao corpo, de cultuá-lo como Sagrado.

AÇÃO CONJUNTA, RESPOSTA INTEGRADA

Porém, para uma abordagem mais integral, é importante um olhar multiprofissional, com o Karate-Do e a Psicologia intervindo para a ampliação da consciência sobre si mesmo. Quando ambos trabalham em conjunto, características pessoais – que talvez passassem despercebidas na prática do Karate-Do ou da própria psicoterapia – podem ser trabalhadas, ajudando no crescimento do Ser, de forma a melhorar tanto a técnica do Karate-Do, quanto auxiliar o próprio desenvolvimento pessoal do praticante. Com a psicologia e o Karate-Do trabalha-se, então, de forma consciente e integrada o corpo, a psique, o social e o espiritual. Quando o corpo vivencia este processo de forma consciente, juntamente com as demais dimensões que somos, pode-se ter a re-integração do Ser.
Desde Reich, o percussor da psicoterapia corporal, sabe-se da importância do trabalho corporal para a liberação emocional e o desenvolvimento pessoal. Gichin Funakoshi já observava em suas colocações que não há verdadeira aprendizagem sem que a experiência passe pelo corpo. Segundo ele, a compreensão do significado e os ensinamentos da arte marcial não podem ocorrer somente a nível intelectual, o corpo precisa vivenciá-lo para entendê-los. De certa forma, a percepção de ambos, Reich e Funakoshi, é em essência a mesma, na medida em que colocam o corpo como fundamental para o desenvolvimento humano. No caso de não haver um trabalho em conjunto de Karate-Do e Psicologia, como em equipes de rendimento/competição esportiva, o Karate-Do pode ser recomendado pelo psicólogo como uma ferramenta complementar para a psicoterapia.
O trabalho integrado é importante porque também é necessária uma compreensão psicológica da pessoa. Com um profissional da psicologia trabalhando em contato com o professor de Karate-Do isto se torna mais fácil.
A compreensão das ideias filosóficas de origem oriental, como a busca pelo Vazio, o desapego, a expressão da complementaridade Yin-Yang através dos próprios movimentos, e tantas outras, podem ser facilitadas pela compreensão da dimensão interior do indivíduo através da psicoterapia. Neste caso, vemos que tanto o trabalho terapêutico realizado pelo psicólogo quanto o caminho de desenvolvimento ensinado pelo Sensei são beneficiados pelo diálogo destas duas tradições.

Daniele é psicóloga, formada pela PUCRS, e estudante de especialização em Psicologia Transpessoal.

Tiago é Professor de Karate, Bacharel em Educação Física pela UFRGS, e estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano, também pela UFRGS.

*publicado originalmente no jornal Bem Estar, de Porto Alegre, edição de agosto de 2011.

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13 comentários sobre “KARATE E PSICOLOGIA – por Daniele Silva e Tiago Frosi

  1. Ótimo texto, nem sempre temos textos explicativos como este, para ajudar os praticantes do karate Do a entenderem todas as manifestações que ocorrem quando estamos a praticar esta Arte Marcial, ja havia lido sobre as relações inter e intra-pessoal em praticantes de karate Do, e muito do que li vocês abordam neste texto. Parabéns pelo ótimo trabalho.

    Oss.

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  2. É muito bom ver essa convergência científica e filosófica entre o karate e ciências ocidentais modernas.
    Osu!

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  3. Sempre tive essa visão, tanto do karate quanto do kendo. Bom ver que essa visão tem um embasamento academico!!

    Parabéns a todos! Está cada vez melhor!!

    GAMBATE!!!!

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  4. Excelente artigo, gostei muito dessa frase “Gichin Funakoshi já observava em suas colocações que não há verdadeira aprendizagem sem que a experiência passe pelo corpo”. Concordo com ela.
    Até mais ! Parabéns pelo trabalho.

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  5. Discordo: Não acredito que as artes marciais sejam suficientes para desenvolver todas as áreas que complementam a totalidade do ser humano.

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    1. Renato Sensei,

      As artes marciais japonesas, Budō, são “Caminhos Dō”, e todos os “Dō” compartilham o mesmo objetivo final, que é o aperfeiçoamento máximo até a “união final com o Universo”.

      A ideia que permeia todo esse processo de aperfeiçoamento é o conceito de “miyabi”, que significa “refinamento”. Todas as práticas culturais japonesas possuem alguma forma, alguma técnica, que é chamada “waza”. Os waza sempre são procedimentos gestuais, que além da sua utilidade prática possuem significados para além do imanente. Sendo assim, o Jūdō possui seus waza (como as técnicas de projeção, de imobilização, etc), o Bajutsu (equitação) possui seus waza (que são diversas formas de conduzir o cavalo, com e sem rédeas, pelo solo firme ou pela água, etc), a cerimônia do chá possui seus waza (cada gesto da preparação, do servir e beber o chá), assim também o Shodō (caligrafia) onde os diferentes estilos de uso do pincel (cursivo, semicursivo, etc) bem como a preparação das tintas são os waza.

      Todo Caminho Dō é estruturado em uma série de waza que devem ser constantemente aperfeiçoadas, refinadas, assim levando o praticante ao conhecimento de princípios espirituais universais. A busca desses princípios, a transformação da técnica artificial (Ji) em uma técnica natural (Ri), onde o praticante e o Universo estão unidos (Toitsu) é a base e o objetivo comum de tudo que é dotado de procedimentos formais na cultura japonesa. Assim, o Karatedō, como um Budō (Caminho para deter a violência), é dotado de suas técnicas waza. Essas práticas são conhecidas como Te-waza (técnicas de mão), Keri-waza (técnicas de chute) e Renzoku-waza (técnicas consecutivas) e devem ser refinadas ao extremo, atingindo através dessa “alquimia” a compreensão dos princípios universais, como nas demais formas de Dō. O processo do rústico ou artificial, até o natural e unificado com o Todo é, portanto, expresso pela ideia de miyabi.

      Uma metáfora muito legal sobre isso foi apresentada no blog do Jesse, onde ele falou sobre um Dō que ninguém conhece mas onde essa coisa toda fica muito clara, o Dōrodango [Caminho da Lama]. Vale a pena conferir:

      http://www.karatebyjesse.com/?p=2192

      Osu!!!
      Abraços a todos!

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      1. Gostaria de poder conversar com vc e daniele, sou faixa marrom de Karatê e estudante de psicologia, e minha monografia é sobre o karatê e a psicologia, por favor entra em contato para eu ter mais ajuda oss

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