OBEDIÊNCIA CEGA AO SENSEI?


Nosso primeiro colunista

Por Tiago Frosi sensei

Conversando com muitos praticantes e professores, tenho observado um tipo de pensamento sobre como comportar-se em relação ao seu Sensei. Minha preocupação em relação a esse assunto é grande, pois estou vendo em muitos lugares uma espécie de ressurreição da relação hierárquica europeia da Era Medieval. Sim, não enxergo a figura do mestre oriental projetada nos professores de arte marcial aqui no Brasil, enxergo a figura do aristocrata europeu que usa seu “poder divino” para abusar dos “reles plebeus” (no caso, os alunos ou instrutores menos graduados).

Mais uma vez, gostaria de incentivar você, leitor, a conferir as ideias que embasam esta coluna na literatura, principalmente os livros “O Crisântemo e a Espada: padrões da cultura japonesa” da antropóloga Ruth Benedict e “Segredos dos Samurais: as artes marciais do Japão Feudal” dos historiadores Oscar Ratti e Adele Westbrook. Nossa reflexão precisa partir de ideias que realmente representam os ensinamentos da cultura da Ásia (especialmente do Japão) e se contrapor ao pensamento de senso comum propagado verbalmente dentro das academias e federações, ou não evoluiremos em nossa concepção a fim de desenvolvermos nossa arte.

Em primeiro lugar, gostaria de fazer uma colocação sobre a hierarquia e o On. Na cultura japonesa, a ideia de uma hierarquia rígida está muito presente e é a base organizacional de todo o sistema social desde o período feudal. Essa hierarquia coloca cada pessoa no seu “devido lugar” e é mantida por ideias sobre as dívidas morais (On) que se apresentam em cada um dos círculos sociais da vida. De forma generalizada, há uma dívida moral suprema em relação ao Imperador e dívidas morais (com diversas classificações que não abordaremos aqui) menores em relação aos pais, parentes, irmãos mais velhos, patrões e professores, e outros. Há uma ideia de aceitar uma dívida moral, o On, quando se recebe algo de alguma pessoa em cada um desses círculos sociais.

Nesse sentido, vai se tornando clara para nós aquela ideia de que “deveremos ao Sensei para sempre” como nos lembrou num curso interessante Pedro Oshiro-sensei (1) realizado em fevereiro aqui em Porto Alegre. E continuou o mestre: “O Sensei nos ensinou tudo, desde como vestir o karate-gi e fazer o primeiro gedan barai”. A cada dia de treino estamos acumulando um pouco de On a nosso Sensei, e de acordo com a filosofia tradicional do Japão, nunca somos capazes de devolver em igual medida a contribuição do Sensei para nossa vida (assim como não o conseguimos em relação aos nossos pais).

No Japão as pessoas evitam oferecer as gentilezas que o ocidental está acostumado a oferecer como parte de sua etiqueta, pois estaria constrangendo aquele que recebe a benfeitoria e obrigando-o a contrair On. No caso da prática da arte marcial, cada um de nós está contraindo On por iniciativa própria e aceitando esta dívida moral. Temos visto que a relação comercial (o fato de pagarmos mensalidades ao professor, dando uma contrapartida financeira pelo que é ensinado) tem dificultado a construção dessa relação de valores. Para nós, que conhecemos este princípio, temos de entender que mesmo assim, como o pensamento japonês afirma, “nunca seremos capazes de pagar uma dívida equivalente ao benefício que recebemos”.

Aqui me parece estar o cerne do nosso problema. Encontrei recentemente numa revista de psicologia um artigo que

Curso com Luca Valdesi  com participação de Tiago Frosi sensei

Frosi sensei se atualizando

afirmava que, após avaliações psicológicas, os praticantes brasileiros de artes marciais demonstravam uma subserviência incomum aos seus professores. Além deste comportamento opressor da parte dos “mestres”, que comecei a relatar aqui, há um comodismo por parte dos praticantes, dos alunos, por acharem que “isto faz parte da hierarquia das artes marciais japonesas”. NEGATIVO, PEQUENO GAFANHOTO!

A antropóloga Ruth Benedict é muito clara em sua análise num dos trechos centrais de “O Crisântemos e a Espada”, e nos esclarece esse ponto com a ideia de que os estudantes prestam total obediência e lealdade ao professor, estão honrando assim a dívida que contraíram do Sensei. Por sua vez, o professor age com muita cordialidade e centramento, honrando assim a dedicação de seus estudantes ou subordinados (no caso das empresas). E continua: “há uma exceção, quando o professor ou chefe age com rispidez ou violência, ou outro comportamento amoral que denigra a integridade (física, moral ou psicológica) de seus subordinados, estes estão livres de seu compromisso e, culturalmente, autorizados à vingança para honrar a dívida que tem com o próprio nome”. Ou seja, os estudantes aceitam contrair On com o professor, e lhe devem obediência e devem esforçar-se nos treinamentos para honrar o conhecimento que estão recebendo do Sensei. Esta obediência, porém, dura até serem maltratados pelo professor. Na cultura japonesa a dívida com o próprio nome (que envolve a ideia de honra à família e aos ancestrais) é uma das mais pesadas que recai sobre um indivíduo e impulsionou inúmeros artistas marciais, desde o período feudal, a buscarem vingar-se de seus mestres.

Obviamente nossa realidade não é a mesma do Japão, mas devemos estar atentos e ter amor próprio. A atitude descortês de muitos professores não é apropriada a um professor de Karate-do, é preciso haver um equilíbrio entre autoridade e cortesia constantes. Muitas vezes confundimos a atitude de homens que acham que o Dojo é uma extensão de suas experiências no exército ou assistindo a filmes de guerreiros espartanos ou da idade média com o comportamento adequado ao “Guerreiro Samurai”.

Karate-do deve ser alicerçado em respeito, e ele começa, sem sombra de dúvida, no exemplo dado pelo Sensei o tempo todo, respeito é algo que precisa transparecer, emanar das atitudes do professor. Fique alerta, o caráter, que está gravado no Dojo Kun, é um elemento básico que não deve estar só num quadro da parede, deve estar nas pessoas. Observe seu professor e seus colegas e faça uma avaliação. Como nos lembra a antropóloga americana Angeles Arrien, o Guerreiro é aquele cujas atitudes estão o tempo todo alinhadas com as palavras e valores. Se o quadro e o discurso de seu Sensei dizem uma coisa e as atitudes dele outra, considere procurar um Dojo de Karate-do de verdade…

Osu!!!

Tiago Oviedo Frosi

Shotokan-ryu Karatedo Shodan (CBK/WKF)

Estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano – UFRGS

Porto Alegre, 08 de maio de 2011

(1) Pedro Oshiro-sensei é 7º Dan do estilo Goju-ryu e presidente da Federação Paulista de Karate (FPK/CBK) e ministrou um curso aberto de Goju-ryu em Porto Alegre, na ACM, em fevereiro.

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Sobre Tiago Frosi

Mestre em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Professor de Karate, estilo Shotokan, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Centro de Treinamento Alcance e Associação Israelita Hebraica, em Porto Alegre, Brasil. Instrutor de Tai Chi Wu-Xing na Universidade Holística Internacional, campus Unipaz-Sul, Porto Alegre, Brasil. Terapeuta Transpessoal. Estudioso da cultura oriental, ciência baseada no paradigma emergente, espiritualidade, transdisciplinaridade aplicada à saúde e às práticas corporais.

Publicado em 08/05/2011, em Nossos Colunistas, Tiago Frosi e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 17 Comentários.

  1. Parabens pelo texto Sensei Thiago,

    Texto este que nos faz refletir(professores) que se não observarmos nossas atitudes, nos policiando a cada dia, poderemos adquirir estes habitos hierarquicos (rispidos) que anularão o real exemplo que devemos dar a nossos alunos a chegar o ponto de criar vingadores do que seguidores do real sentido do Karatê.

    Oss…

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  2. Fábio César - João Pessoa PB

    Mais uma irrelevante post. Obrigado por compartilhar cohecimento!!!

    Oss!!!

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  3. Muito bom o post, muitas vezes também nos deixamos cegar pelas técnicas do sensei e acabamos por adquirir um respeito não pelos seus atos (filosóficos) mas pela sua técnica com golpes.
    Mas pelo que sei, os golpes físicos nada valem sem uma base filosófica que o Karatê-Do nos proporciona.
    OSS!

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  4. Cesar Estivales

    Muito oportuno esse artigo.
    Se tivermos a vigilância constante das nossas atitudes, seguindo o respeito e o bom-senso, constantes do Dojo Kun, adequados à cultura que estamos inseridos, desenvolveremos a percepção do certo e do errado, não correremos o risco de errar o caminho e a disciplina se torna algo natural.
    Abraços!
    Estivales

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  5. Parabens pelo post, isso é algo que acontece com frequencia no Brasil hj em dia; Karate sem conteúdo e burro somente pode gerar mestres com estes pensamentos nebulosos.

    Markim – JKA Brasil – Ribeirão Preto – Aluno do Sensei Roberto Santanna.

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  6. Interessante pod cast, mais uma vez obrigado.

    Infelizmente essas atitudes transparece em muitos que se dizem Sensei. Já estão cegos devido a cairem na tentação do próprio ego!

    Sousa – JKA PORTUGAL – Lisboa – Aluno de Sensei Peté Pacheco

    Oss!

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  7. Ótimo!
    Exatamente o que eu sempre achei sem nem ter lido sobre o tema.
    Já deixei de ser aluno de um Karateca que tem ótimas aptidões técnicas porque fui ofendido por ele e de outro que tinha atitudes violentas contra os mais fracos fisicamente(Geralmente as meninas).

    Oss

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  8. Ótima matéria. Diria eu que a maior parte dos “Senseis” não somente de karate mas de todas as “artes” vai contra a filosofia da própria “arte”. Uma pena, pois isso leva ao desinteresse do aluno que é ridiculamente humilhado perante outros e também a maiorias dos outros que estão assistindo tal “abuso de poder”. Mas realmente é um assunto muito complicado e interessante.

    Parabéns!

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  9. romim diogo

    vida de gado, povo marcado, povo feliz.
    o povo japones me lembra uma colméia de abelhas.
    parabéns sensei tiago.
    oss!

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  10. Felipe Andrade. Arraial do Cabo - RJ

    com certeza eu tenho muita sorte em ter o sensei que tenho. só vim a saber desse tipo de atitude de professores quando começei a participar de foruns sobre karate na internet

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  11. Rodrigo Viana

    Bom, muito claro em seu discurso, sobre a posição dos alunos em relação ao Sensei responsável. Acredito eu, que essa relação de respeito e hierarquia, são essessencias.Mas, por sua vez, o professor deve estar disposto a realizar bem suas atribuições e servir de exemplos para os seus alunos.

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  12. alexandre Remy

    OSS!
    Grato pelo ensinamento!

    OSS!

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  13. alexandre Remy

    OSS!
    O Sr. me autoria a colocar seu texto em meu blog.

    http://shojin-remy.blogspot.com/

    Com as devisa referências é claro!

    OSS!

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  14. este tipo de materia não deve ficar somente dentro de um espaço virtual deveria passae debater para todos os mestres e pseudos mestres em todos as federações para uma grande conferencia entre os pseudos gerentes das partes tecnicas.

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  15. Parabenizamos por este grande trabalho, pelo site informativo e proveitoso. As maneiras de relacionamento mudou muito, a relação pai e filhos, mestre e alunos, etc.

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