NOSSOS COLUNISTAS!

Como prometi, o blog irá trazer bem mais materiais para vocês,só que pelo fator tempo, precisarei da ajuda de colaboradores. E inaugurando nossa nova área, temos Tiago Frosi sensei, que apartir de hoje será um de nossos colunistas, xpondo suas opiniões e somando ainda mais para o nosso espaço.

Fiquem ligados no nosso novo espaço que poderá ser acessado no menu  COLUNISTAS. Oss!

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Ser Samurai hoje!


Porto Alegre, 19 de fevereiro de 2011

 

Nosso primeiro colunista

Tiago Frosi sensei

Venho ouvindo pessoas de várias artes marciais japonesas falando uma mesma frase em discursos emocionados sobre o “espírito do budô japonês”: Somos Samurais!!! E olha, isso não é exclusividade do Karate; pessoas do Judô, do Jiu-jitsu e claro, do Kendo, já falaram esse tipo de coisa na minha frente. Também já ouvi o contrário, certos praticantes de artes marciais indignados reclamando o oposto: “que papo é esse de samurai coisa nenhuma!”. Justo.

Resolvi escrever hoje, nesta primeira postagem para a coluna do Pinto Karate Dojo, sobre este tema: o que é ser Samurai hoje? É possível? Vamos ver…

Historicamente, o que é um Samurai? Bom, vou dar minha própria opinião, mas gostaria de sugerir alguns livros para os interessados que ajudaram a formular meu argumento: 1º Hagakure: o livro do samurai de Yamamoto Tsunetomo. Este é fundamental para entender o pensamento dos guerreiros do Japão no período Tokugawa, é imperdível. 2º Segredos dos Samurais: as artes marciais do Japão Feudal, de Oscar Ratti e Adele Westbrook, professores de História em universidades dos Estados Unidos e praticantes de Aikido, talvez o mais completo com informações que saciam qualquer mente ocidental. 3º O Crisântemo e a Espada, da famosíssima antropóloga Ruth Benedict, que estudou todo o modo de vida japonês durante o período da Segunda Guerra Mundial para dar subsídios aos americanos na luta contra o país do sol nascente. E, também, em 4º Energia Mental e Física de Jigoro Kano, o fundador do Judô, que fala em alguns momentos sobre como a cultura tradicional do samurai foi exportada para o Judô (e para o “budô moderno”), e assim nos ajudando a entender como tudo isso chegou para nós nos dias de hoje.

Quero, antes de tudo, sugerir que dissipemos uma confusão muito importante: há uma diferença entre Bushi e Samurai. Bushi era a denominação para guerreiro, alguém que pertencia à casta chamada Buke no Japão Feudal, e além desta casta haviam outras, que eram os aristocratas e a realeza (Kuge), os camponeses (Heimin), além dos artesãos e comerciantes (Shokunin), do clero e dos párias. Os Bushi (guerreiros) eram a casta que detinha o poder no período feudal, eles eram essas figuras que estamos acostumados a ver com armaduras, espadas japonesas e lanças sobre cavalos nos filmes, seriados, fotos, etc. Mas se isso é um Bushi, o que é um Samurai?

Samurai é uma palavra japonesa que significa “aquele que serve”. Tem origem noutra palavra do nihongo (idioma japonês) arcaico: hirazamourai. Os Bushi do período feudal tinham seus deveres e direitos, todos os japoneses viviam numa sociedade muito restritiva, cheia de regras, onde cada um estava “no seu devido lugar”, e o lugar dos Bushi era superior ao das outras castas em termos de poder e hierarquia (pois os camponeses, artesãos e párias lhes deviam respeito, estavam abaixo na hierarquia; e os aristocratas estavam confinados em Kyoto exercendo um poder figurativo). Porém, esta disciplina extremamente rígida e incompreensível para nós ocidentais gerava certos efeitos no pensamento e no comportamento daquelas pessoas. Havia um impulso por obediência e lealdade para com o generalíssimo, o Shogum, e para com os senhores feudais, os Daimyo. Podemos dizer que havia um sentimento de sacrifício a muitos desejos e possibilidades de se ser outras coisas além de ser guerreiro, mas o guerreiro era essencial para que a sociedade fosse segura e previsível, para que todos na sociedade se sentissem seguros, com as rédeas do destino nas mãos. Esse era o grande ideal da sociedade japonesa, ter o controle sobre o que acontecia, garantindo o futuro. Para isso, o Bushi se transformou em alguém a serviço, não apenas do seu senhor ou do generalíssimo, mas também do ideal de vida japonês, de um futuro seguro e previsível e da ideia de uma hierarquia onde cada um tinha “o seu devido lugar”. O Bushi, interiormente se tornou um Samurai.

Por fim, a partir de 1868 aconteceu a restauração Meiji e o país se transformou. O Japão adotou inúmeras instituições baseadas em modelos ocidentais e, entre outras coisas, as castas foram dissolvidas e o poder passou do Shogum de volta para o Imperador (sob forte influência dos mercadores e guerreiros de classe média que unidos tornaram-se industriais e modelaram a maioria do novo regime). Assim, os Bushi desapareceram, a classe guerreira feudal foi extinta. E o “espírito Samurai”?

Vivemos em uma sociedade diferente, em outro país, com uma cultura totalmente diversa, quase antagônica à japonesa. Mesmo assim vemos muitos praticantes de artes marciais auto proclamarem-se Samurais. Pense no resgate histórico que fizemos: Bushi e Samurai não são a mesma coisa. Com isto, finalizo esta passagem com a seguinte ideia: cuidado! Ninguém pode ser um Bushi hoje em dia, nem mesmo um japonês! Muitas pessoas por aí estão se proclamando “Samurais” e com isso revelando que mantém em suas mentes a ideia de que ao acrescentarem essa palavra a seus “nomes de guerra” estão dizendo que são tão poderosos ou bons lutadores quanto os míticos guerreiros japoneses da antiguidade, famosos por suas habilidades com ou sem armas. Querem ser Musashi ou Oyama, ou pior ainda, querem ser Mike Tyson de quimono. Agora, ser um Samurai de verdade, adotar este espírito como um caminho de vida não me parece inadequado. Pelo contrário, pense: ser uma pessoa que está a serviço, doando seus talentos à sua comunidade, agindo com ética, com disciplina, sabendo ouvir e ser ouvido, é o que nosso mundo precisa, desde que sejamos Samurais que transcendam a imagem antiga. Esqueça a ideia do homem brigão, machão e que tem que provar pra todos que é forte. Violência e rispidez só afastam as outras pessoas e, como vimos, não tem nada a ver com o significado da palavra Samurai. Transcender a ideia antiga é, além de estar a serviço, ser criativo e benevolente, contribuir com a evolução.

Se você quiser ser um Samurai, estar a serviço dos outros através da caridade e da vida correta, vá em frente. Mas não fique falando por aí que você é um samurai se só sabe arrumar confusão com as pessoas na rua, isso é desonroso. E vai que você encontre um Samurai de verdade com um bom Karate na próxima provocação…

 

Osu!!!

Tiago Oviedo Frosi

Shotokan-ryu Karatedo Shodan (CBK/WKF)

Estudante de Mestrado em Ciências do Movimento Humano – UFRGS

 

 

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Sobre Tiago Frosi

Mestre em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. Professor de Karate, estilo Shotokan, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Centro de Treinamento Alcance e Associação Israelita Hebraica, em Porto Alegre, Brasil. Instrutor de Tai Chi Wu-Xing na Universidade Holística Internacional, campus Unipaz-Sul, Porto Alegre, Brasil. Terapeuta Transpessoal. Estudioso da cultura oriental, ciência baseada no paradigma emergente, espiritualidade, transdisciplinaridade aplicada à saúde e às práticas corporais.

Publicado em 20/02/2011, em Nossos Colunistas, Tiago Frosi e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 19 Comentários.

  1. Ednelson João Ramos e Silva Júnior

    Parabéns ao Pinto San, por ter esta idéia de trazer colunistas para o Blog…isso sem dúvida alguma vai ajudar o Blog a crescer ainda mais. Igualmente Parabéns ao Tiago por já começar aqui no Blog escrevendo um excelente texto, realmente ter um espirito “samurai” é sim possivel no sentido de zelar pela honra (com atitudes que sirvam de exemplo às outras pessoas, deixo claro), ser justo em suas ações e benevolente em seus pensamentos. Eu acho que quando alguns usam o termo “guerreiro” para si devem estar querendo dizer que são pessoas de grande determinação, coragem, criatividade diante de adversidades etc, digamos que um exemplo moderno (tirado dos cinemas) da minha compreensão de “guerreiro” é o personagem Rocky Balboa. Como o própri Rocky já disse: “Niguém baterá tão forte quanto a vida. Porém, não se trata de quão forte pode bater, se trata de quão forte pode ser atingido e continuar seguindo em frente. É assim que a vitória é conquistada.” Ser um “guerreiro” na minha concepção é ter forças mesmo nas situações em que muitos desistiriam, suportar os golpes da vida e aprender com isto, sorrir quando alguém diz que você não é capaz de algo e em seguida já ir lutar pelo que você almeja! Aguardo mais posts…Ossu!

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  2. Luís Eduardo de Oliveira Ulbricht

    Ótima coluna, estão de parabéns tanto Pinto-san, qto Tiago-san, acredito que ser um samurai no mundo moderno é isso mesmo, e não é necessário nem ter uma espada, pois a mesmo se encontra no espírito dos verdadeiros samurais.
    Oss!!

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  3. Lú Lobato

    Parabéns!
    Excelente matéria! Muito bem escrita, bem resumida, exprimindo com clareza alguns conceitos, usados erroneamente por muitos.
    Oss!!!

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  4. Roberto Sant Anna

    Aqui no Brasil, se vc é honeto e anda na linha, ja pode ser considerado samurai.
    E o mais interessante de tudo é que alguns Japoneses aqui, insistem em dizer que também são, e continuam a agir de mã fé, mesmo dependendo dos seus alunos-Brasileiros para sobreviverem, esquecendo-se assim, de uma qualidade mais que indispensavel para o samurai, CARATER.

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  5. Muito bom! Gostei das referências bibliográficas, certamente lerei!

    oss!

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  6. Thiago Pio

    Sensei Tiago Frosi, gostei muito de suas sabias palavras sobre ser um samurai nos dias de hoje, ser um samurai nos dias de hoje é muito mais do que saber lutar, ser samurai hoje em dia é lutar pelo bem, estender a mão ao próximo, ajudar quem necessita de ajuda, ouvir quem precisa ser escutado, aconselhar quem precisa ser aconselhado; Pena que muitas pessoas não vêem o ser samurai com esses olhos, mas,vêem com olhos de ignorancia, com olhos de confusão em que querem brigar para provar que são “samurais”.

    Agradeço pelas sabias palavras Sensei.

    Oss!

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  7. Parabéns Pinto San por estar a cada dia melhorando o seu blog com novas informações.
    Parabéns Tiago Frosi pelo excelente post.
    Sobre os pit boys que se auto denominam samurais, há uma frase de um personagem ficticio que se encaixa muito bem para eles que é mais ou menos assim:
    Taikan, onde está a vitória em bater em um oponente mais fraco que você:”
    Mestre do Taikan e Gyriu em Kuro Obi

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  8. Osu!

    É sempre bom ler os comentários dos amigos; a partir deste mês vamos estar sempre postando algo que serve para conversarmos e pensarmos sobre esse nosso caminho que é o Karate-do, agradeço os comentários!

    Osu!

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  9. Muito bom, Tiago! O caminho do Samurai é algo muito difícil de seguir. Servir, doar-se, de forma integral e sem limites, até a morte… muito difícil.

    Tão difícil quanto o Cristianismo. Ainda assim, mesmo sabendo que provavelmente não conseguiremos, acho que são caminhos que merecem ser trilhados, e vale à pena tentar.

    OSU!

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  10. So hoje tive tempo para ler a coluna, sim eu publiquei sem saber o do conteúdo da postagem mas sabia do conteúdo do autor, então não tinha erro.
    Excelente o qu eTiago sensie escreveu, e sou honesto em dizer que fiquei até emocionado ( motivos pessoais).
    Parabéns Frosi sensei, você merece bem mais que um simples espaço aqui, mas acredite que esse pouco que lhe dou é de coração.
    Oss!

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  11. Pablo Carballeira

    Não tenho base teórica ainda para entender a diferença entre alguns termos, budô, bushidô, samurai… Gostei muito do post e pretendo dar uma olhada em algumas das referências bibliográficas.
    Mas mesmo com essa carência, entendo que moldar realmente o caráter para ser uma pessoa melhor e mais útil para a sociedade e para as pessoas que o amam deveria ser o objetivo de qualquer praticante de artes marciais.
    Penso que aquele que treina karatê por esporte desenvolve algumas habilidades físicas, fica bom nos movimentos do karatê e como efeito colateral acaba adquirindo algumas qualidades para a vida.
    Já aquele que treina como arte marcial, treina com o objetivo de fica bom na vida, desenvolver esforço, auto-controle, honra, compaixão… e no fim das contas acaba ficando bom em karatê.
    A diferença está na visão, no objetivo. Daí dar à quem segue este caminho o nome de Samurai é apenas simbólico.

    Oss

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  12. Olá Pinto,
    Fico contente em saber que não houve nada com vc e sua família nessa tragédia que assola a terra do sol crescente.
    Torcemos por uma reestabilização de povo que já provou para o mundo que com disciplina, respeito e tradição, tornou-se uma potência mundial.
    Pinto, estive treinando Karate aí na década de 80 na JKA e gostaria de saber se vc têm alguma irformação sobre os instrutores de lá, bem como a situação do prédio em que nós treinávamos.
    Um gde Abç e fique com Deus,
    Boaz

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  13. Excelente artigo. Serve de base para muitos karatekas que passam por aqui. Abraço.

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  14. Isso não é apenas no Karate.

    Existe no Brasil um antigo sensei de Kendo que possuía 7º Dan (no Kendo a grad. máx. é 8º Dan), que foi desligado da Conf. Bras. de Kendo.
    Ele é considerado um verdadeiro picareta, mesmo sendo filho de japoneses, e os pais e o irmão mais novo todos muito graduados em Kendo. Os pais e irmão continuam ligados ao Kendo e são muito respeitados!
    Mas essa pessoal fundou uma academia que ele diz ser instituto, onde até mesmo os equipamentos só podem ser comprados da loja dele. E o aluno paga 3 a 4x mais do que o custo normal dos treinos de Kendo (que muitas vezes é gratuito, já que nenhum Sensei pode viver ou receber pagamento para ensinar no Kendo).

    ESSA pessoa ensina a seus infelizes alunos que eles são samurais. Conseguiu inclusive apoio político para instituir a data do aniversário dele como Dia do Samurai em diversas capitais do Brasil.

    Não vou entrar em mais detalhes de onde a picaretagem pode chegar, pois nas outras artes marciais não é diferente. Mas apenas reforçando, alunos de Kendo eu nunca ouvi falarem que são samurais (mas tenho apenas 2º Dan). No entanto, alunos desse instituto têm certeza que são samurais.

    CUIDADO!!
    http://www.niten.org.br/

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    • ” já que nenhum Sensei pode viver ou receber pagamento para ensinar no Kendo”
      O senhor pode dar a fonte dessa informação? Oss!

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