KARATE NI SENTE NASHI!

 

 

Família Pinto Mikatabara Jinja

Familia Pinto

“No karate não existe o primeiro ataque”!

Frase muito conhecida entre os karatekas, mas muitas vezes mal interpretada!

Assim como o Dojo kun, vários “ditados” deixado pelos antigos sensei’s são em muitos casos mal interpretados por alguns praticantes e professores, e o que é pior, muitos “picaretas” se aproveitam da falta de informação ou conhecimento mesmo, e acabam distorcendo a seu favor.

Ao contrário do que dizem, o karate é uma arte de defesa pessoal, longe de ser uma arte marcial (se considerarmos ao pé da letra o conceito “MARCIAL”).

O karate (ou TODE) não foi desenvolvido em campos de batalha, não se tem história registrada do uso do OKINAWA TE em alguma guerra, por menor que seja. Foi desenvolvido com o propósito de defesa pessoal contra ladrões, bêbados, arruaceiros e todos outros tipos de perigos que um aldeão “indefeso” poderia encontrar no caminho para sua casa ou no seu estabelecimento.

Claro que algumas famílias tradicionais da “ilha” adotaram essa arte e a desenvolveram. Homens com vasto conhecimento de “artes realmente marcias”, com por exemplo o uso da espada (conhecido no Japão da época como KENJUTSU).

Não vou me aprofundar nesse assunto, pois irá fugir do tema, mas dá pra se ter uma idéia de que o karate é uma arte de DEFESA PESSOAL, ao invés de uma arte marcial, mas nem por isso faz dela uma coisa ineficaz, muito pelo contrário, o objetivo de uma defesa pessoal é livrar-se de uma agressão da melhor maneira e o mais rápido o possível, ao contrário de uma “guerra”, que pode durar anos!

Nos dias atuais, não só no Brasil mas na maioria dos países, a autodefesa foi limitada devido a muitos fatores, como por exemplo o código penal, o grande monstro cheio de armadilhas. O que para você pode ser considerado uma autoproteção, para o código penal pode ser um delito grave, sujeito à penas severas.

Mas há 100 anos atrás, em uma área hostil onde o policiamento era precário ou até mesmo este poderia ser o maior perigo que um camponês iria encontrar, ter uma forma de se proteger, usando quaisquer que fosse os meios, era de imensa importância e ao menor descuido a morte era a certeza!

 

Tsukamoto SanTsukamoto San

 

Os antigos como Itozo e Azato sensei, tinham a grande preocupacao com o comportamento dos seus alunos, pois colocar uma “arma” nas mãos de uma mente fraca, facilmente molestada, que a qualquer oportunidade surgida, iria usar os conhecimentos do TODE, seria uma tragédia, uma mancha na reputação do sensei e de sua “escola”, então a crianção de regras de comportamento eram essênciais, e ainda é nos dias de hoje.

Acredito que daí surgiu o KARATE NI SENTE NASHI – 空手に先手無– (no Karate não existe primeiro ataque), se traduzido ao pé da letra.

Mas isso na minha opinião, é uma linguagem figurativa, para implantar na cabeça dos praticantes a idéia de evitar o confronto, porém, em muitos casos o sucesso de um embate depende da sua iniciativa (primeiro golpe), claro que antes devemos analisar a situação, depois que o embate foi julgado inevitável, podemos responder uma agressão física antecipando a mesma, como na estratégia do SEN NO SEN (先の先), muito usada no karate do dias atuais seja marcial ou esportivo.

Já fui vítima de assaltos e de valentões, e em alguns casos, a razão de ter saído vivo dessas situações foi unicamente por conta da antecipação. Sempre fui contra a discussão em local hostil, ainda mais quando “a coisa esta para ficar preta”, na minha opinião e experiência, ocupar a mente com um “bate boca”, faz com que você perca a percepção da real situação, do terreno e dos ataques que possam vir pelas costas. Enquanto você vasculha sua mente a procura de palavras ou frases que possam vir a “denegrir “ a suposta imagem do agressor, ele usa esse tempo para se enfurecer ainda mais, se por acaso se tratar de um grupo o perigo é maior, pois poderá ser cercado dificultando ainda mais uma estratégia. Em grosso modo o que quero dizer é que “seu zanshin já era”.

Não é preciso ser um expert em karate para perceber que o primeiro golpe já foi lançado, tal golpe pode ser um soco, chute ou até mesmo uma atitude suspeita.

Um bom exemplo, imagine você voltando para casa, por um caminho pouco movimentado, e se depara com 2 ou 3 indivíduos que até então estavam reunidos de forma suspeita e depois de lhe avistar seguiram em sua direção. As chances de ser apenas uma coincidência são mínimas, mas as chances de que logo logo você estará em maus lençóis  são enormes.

Para mim o primeiro ataque já foi desferido, está a caminho. Seu objetivo agora é se defender, seja interceptando ou recuando, veja bem, NÃO ESTOU DIZENDO QUE DEVEMOS REAGIR A UM ASSALTO OU COISA DO GÊNERO, pois isso depende muito da situação e do seu nível de entendimento sobre defesa pessoal, tanto fisicamente quanto psicologicamente, o que quero dizer é que uma agressão pode ter várias faces, saber quais sãos elas e responder de acordo é o primordial. Muitas vezes um relógio velho ou um celular pode lhe salvar a vida ( entregando-os ).

Absurdos como dar as costa ou tentar convencer com palavras a alguém que está excitado com a idéia de te quebrar a “fuça” é loucura.

Se não quer entrar no conflito ,evite de outras formas, como por exemplo passar longe daquele local perigoso, ou deixar de frequentar aquele “boteco” que sempre promove uma ou duas lutas amadoras por noite. Isso para mim é SABAKI ( esquiva), melhor que saber se defender é não precisar se defender ( cuidado com essa frase também).

 

Treinamento Deai

Treinamento Deai

Eu sempre falo que o karate se aprende e se entende através dos treinos duros,do suor, sangue e às vezes pelo pensamento de desistir ( isso mostra que você já superou os seus limites, e está em um patamar até então desconhecido ), nesses momentos a idéia de desistir é o primeiro pensamento que vem a cabeça, “combater e vencer essa idéia é praticar o esforço!”
As regras de conduta são necessárias, ajudam a modelar o caráter, mas temos que ter cuidado para não confundir tais regras com dogmatismos, um dos sinais que indicam um karateka de nível é a forma que ele respeita e cumpre as leis, sejam elas quais forem.
Encaro o DOJO KUN não como o lema do karate, mas sim como regras para uma sociedade equilibrada, afinal honestidade, caráter, dedicação e respeito são os pilares para esse equilíbrio ( na minha humilde opinião).
Espero que tenha sido claro e que você tenha entendido meu ponto de vista, e me desculpem o post extenso, como falei antes sou pai mais uma vez, e “Didinha”só sabe dormir no colo do pai,( momento coruja, hehe). Levei uma semana para poder postar !!!
Um abraço .
Oss!

 

Sobre Pinto San

Estudante de karate há quase 20 anos, amante da cultura japonesa desde os 8 anos de idade e viciado em lámem. Casado com Priscilla Pinto ( filha de japonês), decidimos vir para o Japão pra levantar uma grana trabalhando nas terríveis fábricas japonesas, e treinar muito karate. Treino em um pequeno Dojo no interior do Japão, mas todos os anos em embarco em aventuras pelo país/ilha, procurando os melhores dojo de shotokan para aprender mais karate. Meu objetivo é simples, ser o melhor karateka do mundo! Claro que isso é impossível, mas no fim das contas o mais importante mesmo é a jornada.

Publicado em 06/07/2009, em Cotidiano, Nossos Colunistas, Pinto San e marcado como , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Rui Amaral

    Falou e disse, Pinto-san!

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  2. Muito bom artigo Pinto San!!! Sempre nos brindando com seus comentários inteligentes e bem humorados. Nada a acrescentar. Só nos resta agradecer! Um abraço! Oss!

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  3. Olá Pinto,
    Parabéns pelo site, pelos treinamentos e pela vida pessoal. É uma conquista se poder treinar o karate na terra do Karate.
    Fiquei muito feliz lendo o pequeno dito que fez sobre a história do karate ser ou não arte marcial. Uma vez em um fórum de debates chamado Karateca.net fiz exatamente essa afirmação, ou seja, que o Karate nunca foi uma arte marcial. Foi uma loucura, só faltaram me bater. Expliquei a origem do termo e a minha posição. O termo arte marcial é mais um simbolismo poético do que outra coisa.
    Fiquei feliz em saber que pessoas que gostam tanto do karate como eu, que o pratico desde 1973, terem a mesma opinião.
    Abs e boa sorte na sua jornada.
    Oss!

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  4. paulo rubini

    Parabéns pelo artigo elucidativo e lúcido do que é Karatê como defesa pessoal.
    Oss

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